08/10/2007
Televisão se multiplica em três telas

A digitalização multiplicou a televisão por três. Além do televisor, é possível assistir aos programas nas telas do computador e do celular. Ela também ampliou os meios de distribuição de conteúdo. O vídeo digitalizado se transforma em bits, conjuntos de zeros e uns, e pode trafegar por redes de dados. Assim surgiu a IPTV, sigla em inglês de televisão sobre protocolo de internet. A conexão de banda larga, que pode ser uma linha telefônica, é ligada a um conversor, igual ao da TV a cabo, conectado ao televisor.

O próximo ano dever ser o ano da IPTV, a televisão por banda larga das operadoras de telecomunicações. A Brasil Telecom já lançou em Brasília, a Oi (ex-Telemar) prevê que seu serviço chegará ao mercado no primeiro trimestre e a Telefônica prepara a sua rede até o fim deste ano. Será possível receber a TV aberta digital em dispositivos móveis. A concorrência das diversas telas pelos olhos dos espectadores já afeta a audiência do horário nobre da TV aberta. A consultoria Gartner prevê que, em 2010, haverá 48,8 milhões de assinantes de IPTV no mundo.

Esperamos que a agência avance com a regulamentação, disse Antônio Carlos Valente, presidente da Telefônica, durante o evento Futurecom. Hoje, as operadoras de telefonia fixa não podem oferecer canais, como as empresas de TV paga. Apenas vídeo sob demanda, em que o espectador escolhe o que quer e assiste na hora.

Uma pesquisa da consultoria Accenture, realizada com executivos de todo o mundo, mostrou que a preocupação de Valente é também a principal de atores em outros mercados. Cinqüenta e seis por cento dos entrevistados disseram sentir falta de uma regulação transparente. Em segundo lugar na lista do que não está pronto para a oferta da IPTV, os executivos apontaram a compreensão do consumidor sobre a proposta do produto (48,2%), seguida do desenvolvimento de padrões unificados (40,8%).

A incerteza regulatória, no entanto, não tem impedido o lançamento comercial de serviços. A pioneira PCCW, de Hong Kong, tem 750 mil assinantes. Na Europa, região que lidera a oferta de IPTV, a France Telecom passou de 200 mil assinantes em junho de 2006 para 590 mil assinantes em dezembro, sendo 577 mil na França. A Belgacom comprou os direitos para transmitir via IPTV o campeonato belga de futebol em maio de 2005, um mês antes de lançar o serviço. Hoje, a operadora tem a quinta maior operação de televisão via banda larga da Europa, com 100 mil clientes. O Imagenio, da Telefónica, tem 450 mil clientes na Espanha. A IPTV é importante para as operadoras oferecerem o triple play, pacote que reúne TV, internet e telefonia.

Fora do Brasil, quem domina o setor de IPTV são as concessionárias de telefonia fixa, disse Petronio Nogueira, sócio da Accenture. Aqui no Brasil, todo mundo está testando o mercado. O consultor acha difícil reproduzir, na IPTV, o modelo da radiodifusão, de canais com grade de programação. O diferencial da tecnologia, segundo ele, são o conteúdo sob demanda e a autoprogramação. Existem hoje três telas que se tornaram ponto de entrega interativa de conteúdo.

O padrão japonês, base tecnológica do sistema de TV digital adotado aqui, permite transmitir TV aberta para os celulares. As operadoras não têm ganhos diretos com isso, porque o sinal não trafega na rede delas.

Mesmo assim, o resultado deve ser positivo para a indústria. A TV aberta no celular vai ajudar na progressão da terceira geração, afirmou Nogueira. Ela vai incentivar o usuário a consumir conteúdos móveis. A terceira geração traz a banda larga para o celular e permite a transmissão de vídeo com qualidade para o aparelho. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) espera fazer leilão de licenças ainda este ano.

A evolução da TV tem levado a desenvolvimentos que não eram imaginados há poucos anos. O Xbox, videogame da Microsoft, funciona como um centro de mídia, que transfere vídeo do computador para o televisor. Em janeiro, nos EUA, os canais Starz, da Liberty Media, Showtime, da CBS, e Nickelodeon, da Viacom, fecharam acordo com a Microsoft para tornar seus programas que estão na web disponíveis no aparelho de TV via Xbox ou microcomputadores equipados com o Windows Vista.

Devem surgir set-top boxes que combinam TV aberta e IPTV, disse Nogueira. O set-top box é um aparelho que converte o sinal digital em analógico. Um equipamento como esse permitiria ao telespectador ver os canais abertos e ainda comprar os filmes e programas que quiser assistir da operadora de telecomunicações.

As mudanças trazidas pela digitalização e pela convergência têm um grande impacto na publicidade. A maioria dos executivos ouvidos pela Accenture acreditam que a principal fonte de receita da IPTV serão os anúncios dirigidos (46,5%), parecidos com o que existem na internet. É possível mandar para o espectador publicidade de acordo com o seu perfil, mostrando, por exemplo, lojas próximas da sua casa ou produtos relacionados com os programas que ele mais costuma assistir.

Fonte: Estadão

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